Kelef
Gilberto Catran
Sua era a sempre alegria. A disposição para brincar e para comer pipoca. A atitude, ouvidos e olhar - sempre alerta. Detesta os concorrentes e adora gente. Olhos orientais, oblíquos desconfiados. A bocarra semi-aberta dando conta da respiração. O focinho achatado parecia não ser suficiente. O suspiro iogue profundo quando estatelava relaxado o corpanzil no mármore. O flato malcheiroso inconfundível: assinatura intestinal. Pelo curto de uísque, pele que sobra de foca, de leão-marinho. O trote apressado e pesado. Manada de búfalos em movimento. O salto que tira do prumo. Mas que não derruba. Água. Sede precisada de um balde. Urina também. São alguns seus atributos de criança que nunca cresceu.
São meus os desejos : da criança nunca crescer, de que sempre alguém esteja alegre nas minhas chegadas, de vida eterna. De que tibetanos e chineses possam conviver.
Separados, partem juntos. O que é seu e o que é meu. Como já partiram com outros queridos. E continuarão a partir.
Kelef – em hebraico significa cão. De raça sharpei, apurada na China. Batabuf (palavra árabe que significa atrapalhado e pesado) que se transformou nna corruptela Finha, eram estes seus apelidos. Além de Chines, Chinesinho e Chinesa. Tinha quatro anos e faleceu repentinamente. Era o único e melhor companheiro de Tibet – meu lhasa apso. Se dessa forma for quando se vai que fique junto do Bobby – meu cocker spaniel de infância. Do Wolf, meu collie já de adulto. Do Boomer e da Karen, poodles também amigos de outro formato. E de meu pai que amava os cachorros.