Nem só de Gefilte Fish vive um homem ... judeu
este texto é dedicado à Tia Sima. Agradeço a ela como faço às raízes. Que me mantém com os pés fincados no chão para a cabeça poder voar entre as nuvens.
Gilberto Catran
Dez anos. E Tia Sima já tinha a minha altura aos dez anos. Sua cabeça num leve balanço incessante. Sendo a mais velha das irmãs, apreendera a dirigir primeiro. De tão baixinha, parecia para um observador desatento, que o carro estava andando sem o motorista. Agora, mal enxerga os fundos das panelas quando postada defronte ao fogão. E foi assim que a vi.quando cheguei. Na cozinha mínima adequada ao seu porte. E tinha uma ajudante e eu. O que dava a sensação de ônibus suburbano lotado.
O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem quando nem começara a correr.
Chama pelo meu apelido. Mas antes passa pelo nome de todos os seus filhos até chegar finalmente ao meu apelido. Pronuncia-o de forma reforçada, como que alegre por tê-lo encontrado no meio daquela sua agitação ansiosa. Podemos começar a aula, pergunta a orgulhosa tia baixinha, cabeça de balanço incessante, agora posando de docente. Respondo que só falta o louro José - me referindo a um papagaio pouco engraçado, ora atrevido e muito chato que acompanha uma apresentadora-celebridade num certo programa televisivo diário de culinária.
À fogo lento, serão cozidas oitenta unidades em três grandes panelões. Cebolas cortadas em finas rodelas na quantidade suficiente para tapar o fundo das panelas. São douradas com um pouco de óleo de soja. A água é colocada quase até a meia-altura dos panelões e esquentada. Bem quente, é colocado sal primeiro, em seguida o açúcar em quantidade indecifrável para a matemática dos programas de receita da TV. Tem que ir experimentando. Alguns gostam mais puxado para o doce. Outros não. Mas tem que sentir o salgado e o doce. Paradoxal. Aliás, como a vida. Ah, e tem uma cenoura descascada e inteira em cada uma das panelas. E pimenta do reino à gosto. Setembro.
Setembro era neste ano novo judaico em que decidi apreender a fazê-lo. Quando uma dessas nobres senhoras se vai é como incêndio na única biblioteca da cidade. Meu pai se foi. E jamais me disse como se fazia mamules – doce árabe com água de flor, textura de desmanchar na boca e com paladar de infância e. Não disse pois não sabia. Apenas comera por toda a vida.
O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem.
Entre colisões na cozinha mínima, uma modernidade à disposição de minha tia. Um processador de alimentos. A modernidade atrapalha. Agitadíssima, não consegue o encaixe das peças do processador. Diz que o usara fàcilmente da última vez. Em silêncio, duvido. Nem ameaço tentar ajudá-la. Não é arrogância da baixinha. É pura ansiedade. Ansiedade preenchedora. O que era para ser encaixado antes na montagem da lâmina cortante do processador entrou depois. Agora foi retirado. Mas a peço colocada antes jazia rígida e bem encaixada no fundo do processador. Por muitas vezes repetiu que da última vez fora muito fácil seu uso. Claro que a coisa não funcionava pela presença do invasor da cozinha. Aquele estranho ao ambiente ao qual ela se prontificara feliz em ter a companhia por algumas horas da tarde. Muito esforço e a peço lá, imóvel. Ela cada vez mais ansiosa, mas sem irritação. Apenas ansiosa.
O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem. Ela vai ter com o telefone. Mas com a modernidade na mão. Se irrita com a titia, pedindo que ligue mais tarde. desliga. Respira fundo. O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia . Quer saber se está correndo tudo bem e se precisa de algo. Pergunta quem está com ela. Responde que nosso sobrinho. E pede mais uma vez, agora irritada, que ligue mais tarde porque está com problemas no processador.
Agora a campainha toca. É o rapaz que deve consertar a porta solta da geladeira. Com o processador na mão ela impõe sua condição: se de graça, pode fazer. O rapaz sorri meio sem jeito. Parece torcer para que não seja nada grave e que lhe tome muito pouco tempo com o aparelho. Daquele mato não sai nem inseto. Ela solta o processador na minha mão. Mostra a porta da geladeira ao rapaz. Fortuitamente, a peça finalmente se solta na minha mão com pouco esforço. Ela fala mais uma vez que da outra vez fora muito mais fácil. O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem e se resolveu o problema do processador. Irritada, sua cabeça parecia balançar mais. Responde que não, que da última fez fora muito mais fácil. Muito mais mesmo, afirma com os esses sibilantes de boa mineira que conserva. Agora me deixa, pede à irmã e minha tia.
Iniciamos o processamento de cerca de quatro quilogramas de peixe: filés de pescada de perna-de-moça. Um quilo de posta de cação limpa para reduzir o custo. É bom processar primeiro toda a cebola que não precisa estar cortada. Diria que meia dúzia de cebolas de bom tamanho. Ao processar o peixe vai se reprocessando a cebola, de forma que fique uma massa leve e uniforme. a experiência com o cação não foi muito bem sucedida. Ao processá-lo, o esqualo se enrola no eixo da máquina por ser mais fibroso.
O telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem e se quer o seu processador. Me ocorre que Tia Szaindil mora há uma dúzia de quilômetros dali. que não dirige carros há muiots anos. Que pilota também e muito bem a sua própria cozinha. E pilota também as suas irmãs pelo teclado. Do telefone, bem compreendido.Tia Sima provoca perguntando como ela faria para mandar a ajuda proposta. Pelo Renato, outro sobrinho que tem carro e muito disponível. Pergunta se ele está por lá. Ela, Tia Szaindil, diz que não. Mas diz que não tem problema, que ligará para a Tia Rachel, sua outra irmã.. A baixinha diz que não precisa, que o aparelho está ajeitado. Szaindil pergunta pelo autor do feito. Irritada, ela pede que ligue daqui a um par de horas.
Agora a massa homogênea é adicionado dez a doze ovos levemente batidos. E farinha de matzá. E ainda sal, açúcar e pimenta à gosto.
Naquele setembro, um purê de ingredientes vai ficando pronto. Para amorosamente ser moldado em colher de sopa. E colocado em seguida nas panelas com o caldo já bem quente. Ela diz para ninguém falar naquela hora pois não pode perder a conta do número de unidades. Imaginei o seu orgulho ao acertar em cheio as oitenta unidades que previra no início de sua alquimia culinária. Atentamente conta balançando a cabeça sem parar e o telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem e em que parte do processo está. A ajudante que lhe atendera transmite a pergunta. Tia Sima, sem tirar o olhar da panela responde que ligaria depois. A ajudante transmite. O rapaz da geladeira acaba o conserto. Ela diz que não custou nada pois ele tinha a peça na sua maleta de trabalho. O rapaz sorri, sem jeito. Abre e fecha silenciosa porta a partir de agora. Quando fecha cai um pedaço de papel preso a um íma. Ela simula uma bronca carinhosa nele dizendo do quanto fundamental é aquele papel que contém o número de telefone do plano de saúde e da ambulância, para um eventual momento crítico. Contém também os telefones de todas as suas amigas, todas as cinco irmãs e cunhadas. Intrigado, pergunto a ela porque ao lado de cada nome tem a palavra irmã. Uma das irmãs atende por Guenha. Alguém mais teria este nome ? O rapaz sem jeito e sem um trocado, mas com a felicidade daqueles que acabam de executar uma ação nobre,toma um cafezinho que ela oferecera. E se vai. Ela perde a conta. Balança ainda mais a cabeça. Vinte e oito, eu berro. Pela segunda vez me senti útil naquela tarde. E ela, algo agradecida, retoma a criteriosa contagem. Faz uma cara de preocupação se instala quando informa que deram setenta e nove unidades. E o que sobrou não dá pra fazer mais uma no mesmo tamanho. Me dá uma unidade já bem quente para experimentar: forma, textura e sabor. Delícia que encerra paladares e odores de minha já longe infância. Revisitada em parte, a criança e homem saem apressados para tomar o ônibus para casa.
Deixo ela, naquele ponto. Dali serão três horas de cozimento. Depois, tira-se a panela do lume. e quando algo resfriada, arruma-se num pirex e leva-se ao esfriar completamente para a geladeira recém e graciosamente consertada.
O gefilte fish deveria ser chamado de difícel fish pela indecifrável quantidade de cada ingrediente, outra, enorme, de tempo mais amor aplicada.
Acompanha-lhe, o hreim – assim escrito mais pela pronúncia do que pela correção. É uma pasta vermelho-tinto condimentada : três beterrabas amaciadas por cozimento, água em quantidade suficiente para movimentar o liquidificador e raiz forte de gengibre à gosto.
É setembro e já me vou. Mas antes o telefone toca. É Tia Szaindil, sua irmã e minha tia. Quer saber se está correndo tudo bem. Atendo e lhe digo que tudo está correndo muito bem. Tudo correrá muito bem.